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O Estado de S. Paulo | Violência e falta de segurança em SP afetam saúde mental

1 de outubro de 2020 às 03:44

Moradores do centro e da periferia não se sentem seguros na cidade; medo e traumas podem desencadear transtornos como crises de pânico; saiba o que o prefeito pode fazer nesta área

Por Adriana Ferraz e Bianca Gomes (leia a matéria original publicada no Estadão de São Paulo)

Há seis meses, o pesquisador Pedro Senger, de 25 anos, trabalha em casa por causa da pandemia de covid-19. Quando precisa ir presencialmente ao emprego, sai de casa às 8h e caminha por 10 minutos. Neste horário, a encarregada de limpeza Vandersilva Simeão Ribeiro Pedro, de 54, está iniciando a terceira hora de trabalho. Para chegar às 6h no serviço, passou por ruas escuras até chegar a um ponto de ônibus mais seguro. Isso, às 4h.

Segurança pública é competência dos governos estaduais, mas há políticas municipais que têm capacidade de prevenir o crime e aumentar a sensação de segurança dos moradores. Em São Paulo, ao menos duas delas são essenciais: iluminação pública e zeladoria.

Todo o caminho de Pedro até o trabalho tem sinalização. (TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO)

Vandersilva sai com tanta antecedência de casa porque tem medo de esperar pelo ônibus no ponto mais próximo, a cerca de cem metros. Já foi assaltada ali, em 2015, e não se arrisca mais. Prefere caminhar por quase 1 km, passando por terrenos baldios, pontos de venda de drogas e trechos completamente escuros.

A sensação de insegurança na Vila Missionária, bairro da zona sul da cidade onde a família mora, prejudica também a qualidade de vida de Cláudio Pedro, o marido de Vandersilva. Ele vai junto para assegurar que nada acontecerá no caminho. “A falta de segurança é um dos maiores problemas daqui”, diz a encarregada de limpeza.

Vivenciar traumas, como assaltos ou roubos, pode desencadear uma série de doenças psíquicas. A lista inclui transtorno de ansiedade, crises de pânico ou depressão, como explica a psiquiatra Caroline Argento. “É muito comum pacientes que passam por uma situação de violência entrarem em um quadro deprimido, no qual ficam com medo até de sair de casa. E isso repercute em várias situações, inclusive econômicas, pois essa pessoa não consegue trabalhar”, diz.

Saúde mental tem relação direta com acesso à segurança

Segundo a psiquiatra Caroline, a saúde mental está intrinsecamente relacionada com o acesso à segurança pública.

E o problema da insegurança não decorre, necessariamente, da falta de policiamento. A  5 km da casa da família de Vandersilva, por exemplo, há um batalhão da Polícia Militar. Para a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, o que o bairro precisa é de espaços de convivência seguros.

Para chegar ao ponto, Vandersilva precisa andar em uma rua escura e sem sinalização (LEO SOUZA/ESTADÃO)

“Isso significa investir em infraestrutura e zeladoria urbana, especialmente em regiões periféricas, onde o crime acontece e há menos acesso à rede de proteção de direitos.” Segundo a especialista, a iluminação pública, a poda de árvore e o recolhimento de lixo são exemplos de cuidados que proporcionam um ambiente adequado para a circulação das pessoas.

Em Higienópolis, onde mora Pedro, andar na rua de madrugada não costuma ser um problema. A 1 km de seu apartamento, na Avenida Angélica, há um batalhão da Polícia Militar. Além disso, todo o entorno é iluminado, as ruas são bem-cuidadas e adequadas para caminhadas ou passeios de bicicleta.

“É fundamental que o Estado garanta aos cidadãos a possibilidade de ir e vir com segurança. Quando tiramos esse direito, geramos situações de estresse que podem, sim, desencadear doenças mentais.”Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz

Ter uma rotina de trabalho próxima ao local de moradia é o conceito da cidade de 15 minutos, ilustrada nesta série de reportagens do Estadão a partir das histórias de Pedro e Vandersilva. Moradores da mesma cidade, eles vivem realidades totalmente distintas em função do acesso desigual aos equipamentos públicos.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que nos sete primeiros meses deste ano as regiões de Vandersilva e Pedro registraram quedas nos índices de roubo e furto, se comparados com o mesmo período do ano passado. Onde a encarregada de limpeza mora, os números caíram 8,2% e 43%, respectivamente. No caso do educador físico, 30% e 15%.

Já em relação à iluminação das ruas por onde Vandersilva anda para chegar ao ponto de ônibus, o Departamento de Iluminação Pública (Ilume) informou que fez vistoria no local e substituiu as lâmpadas queimadas.


No centro, cracolândias e pobreza nas ruas afastam moradores

A região conhecida como cracolândia, localizada ao lado da Estação da Luz, não é mais o único local público de consumo da droga no centro da capital. A cerca de 300 metros do prédio onde mora Pedro, grupos de usuários costumam se reunir na Praça José Molina. Ali, a presença de moradores de rua também chama a atenção.

De acordo com dados da Prefeitura de São Paulo, a cidade tinha 24.344 pessoas em situação de rua em 2019. Isso antes mesmo da pandemia de covid-19 elevar ainda mais o desemprego e, consequentemente, a pobreza em São Paulo e em todo o País. Boa parte dessa população mais vulnerável vive no centro, ocupando calçadas, baixos de viadutos ou mesmo marquises de prédios.

Policiais Militares andam na região da Cracolândia, no bairro da Luz,
região central de São Paulo (WERTHER SANTANA/ESTADÃO)

Em bairros como Higienópolis ou Pacaembu, o contraste entre ricos e pobres é explícito. A desigualdade social é pano de fundo para vários outros problemas da cidade, que não oferece oportunidades a todos.

A degradação provocada ainda pela sujeira de lixo nas ruas afasta moradores da região central. Segundo dados da Prefeitura, mais de 1,2 mil imóveis sem utilização foram notificados desde 2016 por meio do IPTU progressivo, fórmula que torna o imposto predial mais caro se não utilizado pelo proprietário.

De acordo com especialistas, os milhares de prédios abandonados do centro poderiam ser transformados em moradias populares, levando moradores da periferia para a região. Medida que elevaria a circulação de pedestres à noite, colaborando para o aumento da sensação de segurança nos bairros que compõem a área.

Apesar do policiamento presente na região, Pedro diz se sentir inseguro em alguns trechos do bairro. “Na Avenida Doutor Arnaldo, por exemplo, tem sempre moradores de rua, acredito que são os mesmos. Às vezes também tem usuários de droga. Nunca tive problemas por ali, nunca fui assaltado, mas não acho seguro.”

215 casos de roubos de celular foram registrados na Avenida Paulista no primeiro semestre deste ano, o maior número da cidade, segundo estudo da Fecap 

Quando caminha a pé até o trabalho, ou quando passeia pela Avenida Paulista, o pesquisador só usa o celular em situações de emergência. “Precisa tomar muito cuidado, até para evitar roubo. Diversos amigos foram roubados na Paulista.”

A cautela tem justificativa. Segundo estudo realizado pelo Departamento de Pesquisas em Economia do Crime da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), a Avenida Paulista foi a via que registrou a maior quantidade de  roubos de celular no Estado durante o primeiro semestre de 2020.


Guarda Civil reproduz em SP lógica da PM

Quem vencer as eleições em novembro não poderá ampliar o efetivo de policiais na região da Paulista de forma oficial – já que esta é uma atribuição do Estado – mas decidirá, por exemplo, se mantém ali a Operação Delegada.

Aprovado em lei, o programa prevê o pagamento de diárias a policiais de folga para fiscalizar o comércio irregular na cidade e elevar a sensação de segurança do paulistano. E o futuro prefeito ou prefeita também irá comandar a Guarda Civil Metropolitana.

Policiais Militares fiscalizam comércio na Rua 25 de Março.
(HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO)

Criada em 1986 pelo então prefeito Jânio Quadros, a GCM começou com 150 agentes que tinham a função quase que exclusiva de zelar pelo patrimônio (prédios, escolas e demais equipamentos públicos) e fazer rondas comunitárias.

A partir de 2003, no entanto, quando as Guardas Civis foram autorizadas a se armar, a característica original se perdeu pelo tempo. Segundo Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, a CGM da capital e de tantas outras cidades abriram mão do policiamento comunitário para tentar virar uma espécie de reprodução da Polícia Militar.

“O guarda comunitário conhece os moradores, cria vínculos de confiança. A guarda poderia ter um papel de mediar conflitos presentes ali no bairro, nas unidades de saúde, nas escolas”, lamenta. O efetivo hoje conta com pouco mais de 6 mil guardas que, em 2019, prenderam 3,8 mil pessoas – número 14% maior do que no ano anterior.

“O armamento das Guardas e a reprodução da lógica da Polícia Militar acabam piorando a sensação de segurança em bairros da periferia.”Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP

“Há um grande problema em relação à violência policial, que se dá principalmente contra jovens, negros e moradores de bairros periféricos. E quando o Estado é visto como inimigo, o crime se fortalece, pois cria uma revolta naquelas pessoas.”

“Temos policiais muito bons que passam por aqui e são educados com a gente. Mas, infelizmente, ainda existem muitos outros racistas que acham que todo preto é vagabundo e ladrão”, afirma Vandersilva. “É isso que às vezes acaba atrapalhando.”

Hoje, a violência policial é considerada um dos maiores gargalos da segurança pública. “São Paulo conseguiu reduzir 70% dos homicídios em 20 anos. Mesmo com uma cidade com menos violência, a violência policial se manteve. E é sempre um desafio: exige vontade política, líderes que compreendam o problema social que ela provoca”, diz Manso.

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