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Folha de S. Paulo | Governador de SP não ajuda polícia ao dizer que bandido ‘vai levar bala’, afirmam especialistas

4 de maio de 2022 às 03:43

Por Fábio Pescarini (leia matéria original publicada pelo jornal Folha de S. Paulo)

Para pesquisadores da área de segurança, PM vem conseguindo reduzir sua letalidade

Especialistas em segurança pública criticaram a fala do governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), que nesta quarta-feira (4) afirmou que “bandido que levantar arma para a polícia vai levar bala da polícia”.

A frase foi dita durante evento para apresentar uma operação da polícia para combater roubos e furtos de celular e inibir golpes de Pix.

“Bandido que levantar arma para a polícia vai levar bala da polícia, porque é isso que a sociedade está esperando, uma polícia ativa, que dentro dos limites da lei vai agir com muito rigor em relação à criminalidade”, afirmou o governador.

Para Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Rodrigo foi infeliz porque, na opinião dela, a Polícia Militar de São Paulo vem fazendo um excelente trabalho nos últimos dois para redução da letalidade policial.​

“Precisamos reconhecer que com a profissionalização do uso da força, a letalidade policial caiu”, afirmou ela.

Medidas implementadas pelo governo de São Paulo para redução da letalidade policial, entre as quais o uso de câmeras “grava tudo” acopladas aos uniformes de policiais militares, levaram a uma queda de 36% no número de pessoas mortas em supostos confrontos no estado de São Paulo em 2021.

De 1º de junho a 31 de dezembro do ano passado, os batalhões nos quais o equipamento é usado registraram 17 mortes por intervenção policial. Em 2020, tinham sido 110 mortes no mesmo período, e em 2019, 165.

Carolina diz que o discurso do governador parece uma tentativa de acessar públicos que pedem uma polícia mais linha dura. “Essa fala de levar bala pouco ajuda porque a polícia já faz isso, quando corre risco, se é ameaçada, se defende alguém da morte”, afirma ela. “Ela já tem autorização legítima para usar a força, para atirar”, diz.

A especialista afirma ainda que pesquisas apontam que quando uma liderança pública legitima o uso da violência, muitas vezes isso acaba sendo reproduzido pela tropa policial. “Precisamos continuar profissionalizando o trabalho da PM e fazer operações planejadas com a Polícia Civil para enfrentar o problema de roubos”, afirma.

Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que não cabe ao político dizer como o trabalho operacional deve ser realizado ou como a polícia vai reagir.

“É uma típica e perigosa bandeira de campanha, que tenta repetir o que João Doria [ex-governador que deixou o cargo para tentar concorrer à Presidência da República] fez em 2018 ao prometer novos ‘Baepe padrão Rota’, que na prática tirou efetivo do policiamento ostensivo cotidiano”, diz.

INSEGURANÇA EM SÃO PAULO

Para Rafael Alcadipani, professor da área de segurança da FGV (Fundação Getulio Vargas), a fala do governador é uma ação populista para tentar angariar votos. “É lamentável que se use a segurança pública não como política de Estado.”

Rodrigo Garcia alcançou 6% na pesquisa Datafolha de abril, empatado no limite da margem de erro com Tarcísio de Freitas (Republicanos). A corrida é liderada por Fernando Haddad (PT), com 29%, à frente de Márcio França (PSB), com 20%. Ele assumiu o governo no início de abril, após Doria (PSDB) deixar o cargo.

Lima também diz que a polícia precisa agir com profissionalismo e estar preparada para dar as respostas legais mais adequadas para cada tipo de ameaça.

Alcadipani, que pesquisa a formação policial em vários países, afirma que o estado de São Paulo investe muito dinheiro na formação das escolas tanto da Polícia Civil quanto da Militar. “Não precisa um governador explicar como um policial deve fazer seu trabalho, ele sabe usar arma.”

O ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente da Silva Filho também criticou a fala do governador. “Rodrigo usa a mesma retórica do [ex-governador paulista Paulo] Maluf e [do ex-governador fluminense Wilson] Witzel de dar recado para bandido e ensinar a polícia a fazer seu trabalho. É pura conveniência política”, afirmou ele, que também é coronel da reserva da PM de São Paulo”.

“A polícia paulista, especialmente a PM vem se aperfeiçoando de longa data e conseguindo os melhores resultados de segurança no país, sem depender da retórica do governo. Ele podia ser corajoso de verdade, dobrando o valor desse vergonhoso pagamento (R$ 261) de diária ao policial que trabalha na hora de folga”, disse.

Em sabatina realizada por Folha e UOL nesta quarta, Rodrigo Garcia reafirmou as declarações anteriores e disse que “a ordem minha é que se cumpra a lei em São Paulo”. “Dou sim uma palavra muito dura de proteção ao cidadão de bem e de combate à criminalidade”.

AUMENTO NA CRIMINALIDADE

O primeiro trimestre de 2022 registrou um aumento no número de furtos e roubos no estado de São Paulo, na comparação com o mesmo período de 2021. Com isso, o patamar dos dois crimes se aproxima do registrado antes do início da pandemia de Covid-19.

Segundo os dados divulgados pela SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública), foram registrados 132.782 furtos no primeiro trimestre do ano.

Isso representa uma alta de 28,5% em relação aos primeiros três meses de 2021 e de 7% na comparação com 2020 —a pandemia começou em março daquele ano. Na relação com o mesmo período de 2019, antes do início da crise sanitária, houve uma diminuição de 2,7%.

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