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Ponte | Armas em casa trazem mais riscos do que segurança, avaliam especialistas

27 de maio de 2020 às 05:46

Briga que terminou com delegado Paulo Bilynskyj baleado e a namorada dele morta aconteceu em apartamento com seis armas

Por Arthur Stabile (leia a matéria completa publicada pela Ponte)

O discurso de quem apoia a flexibilização de acesso a armas para a população em geral está amparado na lógica de que “mais armas significariam mais proteção”. No entanto, especialistas que estudam o tema sustentam que a realidade é inversa: disponibilizar mais armas para as pessoas em suas casas é sinônimo de insegurança e mais mortes.

No dia 20 de maio, uma briga de casal que mantinha armas em casa terminou com uma morte. Segundo a versão da principal linha de investigação, o delegado Paulo Bilynskyj, 33 anos, estava tomando banho quando a namorada dele, Pricila Delgado, 27, supostamente incomodada com mensagens que ele teria recebido no Whatsapp, atirou seis vezes nele. Depois, Priscila teria se matado com um tiro no peito. O caso aconteceu em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, no apartamento onde os dois viviam juntos.

Na casa, além da arma calibre 9mm, que, segundo a versão do delegado à Polícia Civil, Priscila teria usado para feri-lo, também havia uma espingarda sobre o sofá. Segundo a Polícia Civil, tinham seis armas no apartamento: uma espingarda, dois fuzis, duas pistolas 9mm e uma metralhadora .40.

Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta que cidades com maior circulação de armas apresentaram taxas de homicídio superiores às com menos acesso a armamentos.

Estudo do impacto das armas no Brasil

Com base em dados do SIM (Sistema de Informações sobe Mortalidade), do Ministério da Saúde, a cidade de Itamaracá (PE), com 165 mil moradores, liderava o ranking de armamento em 2012 e tinha taxa de 60,3 mortos por 100 mil habitantes.

Na mesma época, Barreiras (BA), cidade com menor quantidade de armas e população maior, de 286 mil pessoas, registrou taxa de homicídios de 0,7 por 100 mil habitantes.

“Há evidências de que a difusão da arma de fogo concorre para o aumento da taxa de homicídios nas localidades e não possui efeito sobre a taxa de crimes contra a propriedade”, aponta o estudo.

A mesma pesquisa detalha o impacto das armas nos homicídios do país: a cada 1% que se acrescenta em armas a taxa de homicídios cresce 2%, conforme estudo do professor Daniel Cerqueira, diretor do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Para Isabel Figueiredo, pesquisadora em políticas públicas de segurança e consultora do FBSP, o caso de Bilynskyj evidencia justamente a falácia de que quem tem arma em casa tem mais segurança.

Ela sustenta que um dos perigos é aumentar os danos em situações como brigas. “Uma discussão comum, que poderia ser banal ou outro tipo de fim, acaba tendo uma escalada no nível da violência com a arma de fogo. É uma coisa muito preocupante”, justifica.

Segundo ela, ainda existe a falsa sensação de proteção contra possíveis crimes. “A presença de uma arma potencializa chance de que um roubo se transforme em um latrocínio, por exemplo”, prossegue.

“Existe o falso mito de que a pessoa ter arma automaticamente ela vai conseguir se defender. Não vai rolar de o ladrão esperar um segundo para você se preparar para o combate. Tem o elemento surpresa e ele reduz claramente a capacidade reação”, afirma.

Natália Pollachi, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz, alerta que, além de as discussões ganharem outro nível de perigo, há a chance de aumento nos suicídios.

Um estudo publicado no The New England Journal of Medicine comparou o total de suicídios cometidos com armas em estados com maior e menor controle no acesso a armas nos Estados Unidos. Enquanto no primeiro grupo 47% das famílias possuíam o equipamento em casa, no outro, apenas 15%.

E os reflexos são nítidos quanto ao suicídio. A diferença chega a ser de quase dez vezes mais casos quando as vítimas são mulheres: 2.212 casos nos estados sem tanto controle de armas e 286 naqueles onde há políticas mais rígidas.

Quanto aos homens, os suicidas que usaram armas foram 14.365 nas áreas mais permissivas, enquanto 3.971 se mataram nas regiões com controle de circulação de armas.

“É um objeto que com 2 segundos você destrava, atira, e tem reação letal. É um instrumento com menos chance de sobrevivência, portanto, favorecem o suicídio”, afirma Pollachi.

A pesquisadora alerta para os decretos presidenciais de Jair Bolsonaro (sem partido) que aumentaram o total de pessoas pessoas com acesso, a quantidade de armas, os calibres disponíveis e as unidades de munições.

“Estamos sujeitos a critérios muito mais brandos e as pessoas vão ter arma à disposição. Basta um momento de qualquer tipo de emoção para gerar uma situação letal”, afirma.

A representante do Sou da Paz cita outra estatística dos Estados Unidos. Uma reportagem do The Washignton Pos traz um levantamento do Violence Policy Center, que aponta que 34 pessoas inocentes morrem baleadas para cada suspeito morto por legítima defesa em tiroteio.

“Com uma arma, ela pode até ficar bem guardada. Agora, a pessoa pode ter até seis em casa com a liberação de um dos decretos. Atiradores e caçadores tem liberação de até 30. As armas vão, de alguma forma, estar disponíveis para outras pessoas da casa”, afirma Natália Pollachi.

Versões divergentes

O acesso a armas pode ter influenciado, de alguma forma, no caso do delegado Paulo e de Priscila. Ela teria tido usado uma das armas do policial contra ele e depois para tirar a própria vida, segundo a principal linha de investigação.

O advogado José Roberto Rodrigues da Rosa, que representa os interesses da família de Priscila, afirma que a tese de suicídio não é crível. “Só queremos a verdade. Essas considerações [de que ela não teria se matado] têm por base o discurso da família, que disse não ter notado nada de diferente. A família tem mensagens dela dizendo que estava bem. Em momento algum ela deixou transparecer que ela tinha algum problema dessa natureza, que pudesse causar aflição”, pontuou Rosa.

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