CONTATO

Entre em contato pelo telefone
(11) 3093-7333, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h; pelo
e-mail atendimento@soudapaz.org, ou envie uma mensagem por meio do formulário a seguir:


Assessoria de Imprensa

Izabelle Mundim
izabelle@soudapaz.org


Desejo receber as newsletters do Instituto Sou da Paz.

MATÉRIAS

Verbos para Cláudia

Artigo publicado pelo Brasil Post em 21 de março de 2014.

Não há adjetivos que façam justiça. “Abominável, inaceitável, barbárie desumana”. Esgotaram-se as figuras de linguagem. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Não sobram nomes. Cláudia, Douglas, Amarildo. Não há mais o que falar sobre a desmedida violência policial no Brasil. Resta fazer algo a respeito.

Tragicamente, o que torna o assassinato de Cláudia peculiar não é o fato que agentes da lei, funcionários públicos pagos pelos cidadãos com seus impostos, comandados por um governador eleito democraticamente pelo povo, tenham matado torpemente. Tampouco o asfalto que lhe tolheu qualquer misericórdia ou dignidade aos seus últimos suspiros é especial por localizar-se no Rio de Janeiro, pois mortes assim se repetem ao redor do país. Tratar cadáveres, iminentes ou consumados, como um saco de lixo, tampouco é novidade.

Pior: nem para estes mesmos policiais que abateram e arrastaram Cláudia matar era novidade, já que tinham no seu histórico conjunto 69 mortos por “auto de resistência”. Que diabos de sociedade permite que um sub-tenente, envolvido em 63 mortes, continue a lhe representar como agente armado da “lei”? Tampouco a falta de responsabilização criminal dos policiais assassinos, ou política dos seus comandantes, será peculiar.

O que torna a via crúcis de Cláudia distinta é o simples fato de uma tranca de porta-malas ter traído seus algozes, e que seu martírio foi filmado por um cidadão corajoso e se alastrou como fogo pelas novas mídias, impactando mais córneas e consciências que o usual. Não fossem esses dois detalhes, o homicídio de Cláudia é absolutamente corriqueiro no Brasil. Cláudia é a regra; sua morte, “normal”.

A outra diferença da norma, mas que mesmo assim não constitui exceção, é que Cláudia era comprovadamente “trabalhadora”, mãe amorosa, pessoa “de bem”. Ou seja, nem de longe entrava na mórbida máxima “bandido bom é bandido morto”, chavão medieval que de alguma forma sobrevive em boa parcela da psique da população do país e legitima a violência policial.

Acontece que, em qualquer país onde as estruturas de segurança pública e justiça criminal tenham adentrado o século 21, “bandido bom é bandido preso, julgado com probidade e, se necessário, preso sob condições humanas”.

Alexandre, o marido de Cláudia, do alto de uma dor incomensurável que não passará, nunca, entende esse fato: “nem o pior traficante do mundo merece esse tratamento que ela teve”. Ou seja, matar seres humanos jamais deve ser normatizado como “ossos do ofício” de uma polícia – mesmo que “suspeitos” ou bandidos – pois polícia não existe pra julgar ou punir.

É essa a grande tragédia escancarada pelo sofrimento de Cláudia: ela é simplesmente mais um nome, uma vítima a mais, não um caso excepcional. Enquanto a sociedade brasileira e a própria polícia continuarem legitimando a violência policial, continuaremos cotidianamente a assistir o macabro desfile de nomes, seguidos de adjetivos e figuras de linguagem.

Não se trata de demonizar uma corporação inteira ou, pior, todos os seres humanos que a compõe. Neste ano, o Instituto Sou da Paz conduz a sexta edição do Prêmio Polícia Cidadã, que reconhece, celebra e dissemina o trabalho dos (muitos) bons policiais. Nem se trata de responsabilizar sozinhos soldados, treinados e mandados para tal, pelas estruturas constitucionais postas, ou pelas decisões políticas de seus comandantes e daqueles que os elegem: todos nós.

Também não se trata mais de debater “se” a reforma das polícias no Brasil é pertinente, necessária, urgente. Não há especialista, gestor, acadêmico ou analista em sã consciência que não compactue com a necessidade de mudança. Trata-se de discutir o “como” e o “quando”. E de garantir ações, além de palavras e compartilhamentos no Facebook, da sociedade como um todo nesta direção.

Encontraremos resistência dentro da própria corporação, por óbvio. Nenhuma instituição quer ser atacada, criticada e forçada a mudar – especialmente de forma isolada, quando os problemas do sistema de segurança pública e justiça criminal são sistêmicos e todas as outras instâncias também precisam de reforma urgente. A PM não deve “pagar o pato” sozinha.

Mas o sistema de segurança pública brasileiro não pode continuar a permitir que matar (quem quer que seja) constitua uma ‘ferramentas de trabalho’ comum e, assim, perpetue normas que deveriam ser raras exceções.

A decisão política é de cada cidadão brasileiro: quantas mais Cláudias, Douglas e Amarildos vamos tolerar? Permitiremos a eleição de qualquer candidato a governador ou presidente que não se declare publicamente pelo fim do modelo atual de policia com a criação de polícia única de ‘ciclo completo’?

“Somos todos Cláudia”? Não, não somos. Se a polícia militar invadisse casas de classe média alta, entrasse atirando na sua rua, torturasse no Leblon e nos Jardins, matasse a esmo seus vizinhos e familiares – por bala “perdida” ou “resistência seguida de morte” – essa polícia continuaria a existir?

Por definição, a polícia que mais mata no mundo – cinco seres humanos por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública – não é uma boa polícia. Esta serve para “servir e proteger”. Já estamos cansados de saber que uma profunda reforma da polícia é necessária. Falta fazer.

Não há adjetivos que façam justiça para Cláudia. Verbos, sim.

Daniel Mack é analista sênior do Instituto Sou da Paz

QUER FAZER PARTE?

APOIE O SOU DA PAZ

A Paz na Prática acontece com você.

#SouDaPaz

Participe das nossas redes sociais