Um ano sem chacinas
Por: Sou da Paz
Data: 18/01/2010
Em meio a tantas tragédias, desastres e mortes tolas, finalmente uma notícia positiva para iniciar 2010: a zona sul de São Paulo não teve nenhuma chacina no ano passado. Claro que viver sem chacinas deveria ser uma coisa absolutamente normal, mas este, infelizmente, não é o caso - especialmente na Zona Sul, por anos conhecida como uma das regiões mais violentas do planeta e que hoje vai se consolidando como um local que aprendeu a superar os tons mais dramáticos da violência.
As chacinas foram uma marca de São Paulo na década de 90. Elas tradicionalmente eram pouco investigadas pelas polícias, uma vez que as vítimas eram sempre jovens pobres e entre os autores se encontravam com frequência policiais. A partir de 2000, essa lógica começou a mudar. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa criou um grupo especializado em investigar chacinas.
Um conjunto relativamente pequeno de policiais passou a ser responsável pela investigação de qualquer chacina que na cidade. Aprenderam como os criminosos agiam e começaram a conquistar a confiança dos familiares de vítimas e testemunhas. Isso fez com que não só fosse mais fácil chegar aos autores, como houvesse mais provas para sua condenação. Em meio a uma melhora generalizada no esclarecimento de homicídios, o crime de chacina se destacou e alcançou na segunda metade da década impressionantes 90% de esclarecimento.
Também é inegável que outras ações tiveram contribuição importante. Comunidades se organizaram e passaram a cobrar e interagir mais com a polícia. Membros do Ministério Público saíram de seus gabinetes e foram conversar com moradores. Projetos sociais foram levados à zona sul, privilegiando o público e os locais mais afetados. Por último, mas certamente crucial, armas foram de muitas maneiras retiradas das ruas. Apreensões de armas ilegais foram feitas e campanhas de recolhimento e medidas de controle ajudaram a reduzir estoques de armas que acabavam sendo usadas nesses crimes.
O fato de que ninguém nesta área da periferia com mais de 1 milhão de habitantes foi vítima de chacina em 2009 merece ser comemorado, assim como a redução geral dos homicídios. Não podemos contudo parar por aqui. Há ainda um longo caminho pela frente para tornar os níveis de segurança dos paulistanos perto do razoável. A boa notícia é que estamos no caminho certo.
Denis Mizne, 33, é diretor executivo do Instituto Sou da Paz. Formado em direito pela USP, tem pós graduação nas Universidades de Columbia e Yale.
Publicado no caderno Metrópole do Estadão em 18/01/09